"O Brasil está desperdiçando sua maior chance de progresso econômico dos últimos séculos"

Postado em out. de 2022

Sustentabilidade | Literatura | Futuro e Tendências Globais | Economia e Negócios

"O Brasil está desperdiçando sua maior chance de progresso econômico dos últimos séculos"

O alerta é do historiador e jornalista Jorge Caldeira, eleito para a Academia Brasileira de Letras. O conferencista da Temporada 2022 vem falando sobre o tema desde o lançamento do seu mais recente livro.


Em Paraíso restaurável, Caldeira se uniu à economista Julia Marisa Sekula e à jornalista Luana Schabib para apresentar aos leitores as transformações do mundo rumo a uma economia limpa e sustentável, bem como demonstrar as potencialidades do território brasileiro. Nesta entrevista, o autor paulistano explica os principais marcos dessa transformação econômica e revela seu espanto ao perceber que, apesar da vocação nacional para ser um grande ator nesse processo, o país está “na contramão do mundo”.

Caldeira aprofunda este debate em conferência no Fronteiras do Pensamento, que está disponível para assinantes na plataforma on-line. O conferencista é reconhecido por seus relatos inovadores sobre o país e autor do best-seller História da Riqueza no Brasil. Cientista social, mestre e doutor pela USP, publicou Mauá: Empresário do império e outras 18 obras que recontam a história brasileira. Seu mais recente livro, Brasil: Paraíso restaurável, discute as potencialidades do país diante da economia verde. Publicou também obras sobre Diogo Antônio Feijó, José Bonifácio, Noel Rosa e outras personagens citadas em livros como 101 brasileiros que fizeram história e História do Brasil com empreendedores.

Em seu novo livro, Paraíso restaurável, o senhor fala sobre a transformação radical que a lógica de carbono neutro está trazendo para a economia. É possível traçar um paralelo com outro momento?

É mais ou menos comparável com o que foi a informática nos anos 1980. O computador saiu de uma escala universitária para se tornar parte da vida de todo mundo. As taxas de crescimento de tudo que é relacionado à economia de carbono neutro são exponenciais. O resto está ficando parado.


Quais são os principais marcos dessa mudança?

Quase tudo que está no novo livro aconteceu dos anos 1990 para frente. Hoje, 40% de todos os capitais existentes no planeta, ou seja, algo perto de US$ 50 trilhões, são aplicados conforme os critérios ambientais. No Brasil, em 2010, não havia praticamente nada de energia eólica, hoje representa entre 12% e 13% da produção de energia elétrica no Brasil. É como se fosse uma Itaipu e meia de energia eólica.

Não temos percepção do tamanho dessa mudança por ser um processo silencioso?

Não é silencioso. É descentralizado. Milhares de pessoas instalaram placas solares no ano passado. A percepção é baixa porque estamos acostumados a encarar a infraestrutura como uma questão de planejamento central. A percepção é baixa, mas a velocidade é muito alta.

O senhor tem declarado que o Brasil está desperdiçando sua maior chance econômica desde a descoberta do ouro. O que isso significa?

Estamos falando de um processo que, com exceção da União Europeia, é mal percebido no mundo inteiro. E no Brasil é pior ainda. Isso porque, se você está num lugar em que o carvão é responsável por 60% a 80% da energia, como a China, por exemplo, você tem um problema. Se você está em um lugar que é praticamente zero, como o Brasil, você tem menos problema. Mas essa é também uma oportunidade muito maior no Brasil, já que, por razões históricas, a economia brasileira está muito mais perto do carbono neutro do que qualquer outra. Em 10 anos, podemos alcançar metas que a China não alcançará em 40.

Alcançar essas metas faria com que o Brasil tivesse acesso a investimentos internacionais vultosos.

A questão central é a seguinte: para chegar lá, é preciso saber que tem que chegar lá. É preciso preparar a nação. E aí é necessário planejamento estatal. Em dezembro de 2019, a União Europeia anunciou que em 2050 chegará ao carbono neutro. Depois, vieram Coreia do Sul, China, Rússia, Estados Unidos, Japão… O norte da economia não é mais o crescimento do PIB, mas a meta de carbono neutro. Tudo isso aconteceu em dois anos. O Brasil ainda não despertou para isso.


Como essa transformação beneficiaria a Amazônia, por exemplo?

Você tem dois usos para algo como a Amazônia hoje. O primeiro é continuar produzindo como se produz desde o neolítico, devastar a floresta para colocar animal pastando. Mas hoje há mais dinheiro para financiar plantio de árvores nas áreas degradadas da Amazônia do que para qualquer outra atividade econômica. Há 15 milhões de hectares devastados na Amazônia que poderiam receber financiamento para reflorestamento e cuidado. Só no ano passado, foram emitidos US$ 280 bilhões para esse tipo de financiamento. Está sobrando dinheiro para isso. Mas o Brasil continua achando melhor seguir fazendo o que se faz há 7 mil anos.


O Brasil não quer enxergar a realidade?

O Brasil está na contramão do mundo porque muita gente não gosta dessa nova realidade. A nova realidade exige mudar comportamentos, parâmetros de projetos, uso da terra, atividade econômica. Tem muita gente que, frente ao dinheiro, foge dele. Estamos fugindo do dinheiro. Confesso que acho isso um espanto.


Alexandre Lucchese, Jornalista e escritor

 

 

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Jorge Caldeira

Jorge Caldeira

Escritor e historiador brasileiro

Imortal da Academia Brasileira de Letras reconhecido por sua forma inovadora de contar a história do Brasil.
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