Inteligência artificial: uma visão do futuro já em prática no presente

Postado em dez. de 2021

Internet e Redes Sociais

Inteligência artificial: uma visão do futuro já em prática no presente

A inteligência artificial já faz parte do nosso dia a dia bem mais do que as pessoas percebem, como destaca Sílvia Moraes, doutora em Ciência da Computação, com quem conversamos sobre o tema.


Yuval Harari ficou mundialmente famoso com “Sapiens”, livro no qual investiga a escalada da evolução humana desde tempos ancestrais. Se voltar ao passado é um desafio que sedimenta a compreensão do tempo presente, prospectar o futuro também é um exercício sedutor para cientistas e pensadores. Conferencista do Fronteiras do Pensamento – Era da Reconexão, o historiador israelense embarcou nesta jornada em “Homo Deus”, volume em que, entre outras considerações sobre como deverá o mundo décadas adiante, fala sobre a inteligência artificial (IA) gerenciando elementos cada vez relevantes da vida individual e da sociedade.

Para Harari, “a ciência está convergindo para um dogma que abrange tudo e que diz que organismos são algoritmos, e a vida, processamento de dados; a inteligência está se desacoplando da consciência; algoritmos não conscientes, mas altamente inteligentes poderão, em breve, nos conhecer melhor do que nós mesmos”. Em outro livro, “21 Lições para o Século 21'', Harari pondera: “Talvez o maior pecado da ficção científica atual seja a tendência a confundir inteligência com consciência. Como resultado, está preocupada demais com uma possível guerra entre robôs e humanos, quando na verdade devemos temer um conflito entre uma pequena elite de super-humanos com poderes ampliados por algoritmos e uma vasta subclasse de Homo Sapiens sem nenhum poder. Quando se pensa no futuro da IA, Karl Marx ainda é um guia melhor que Steven Spielberg”.

A literatura fantástica cristalizou no imaginário de diferentes gerações, a partir do século 19, a figura do autômato ou sistema dotado de algum grau de inteligência criado pelo homem para servi-lo, mas que acaba rebelando-se contra seu criador. A transposição deste cenário para o cinema aguçou ainda mais a visão distópica relacionada ao duelo entre o homem subjugado e a máquina dominadora.

A inteligência artificial, entretanto, já faz parte do nosso dia a dia bem mais do que as pessoas percebem, destaca Sílvia Moraes, doutora em Ciência da Computação, professora da Escola Politécnica da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), onde coordena o curso de especialização em Ciência de Dados e Inteligência Artificial:

“Se você encontrasse um robô circulando pela rua, você pediria informações a ele? Se sim, você acreditaria, confiaria e seguiria as orientações dele sem questionar?’. Eu não me surpreenderia se as pessoas mais temerosas respondessem não. Este é o ponto. Quantas pessoas, hoje, seguem softwares de navegação no trânsito? Quando você vai fazer uma compra e o site apresenta diferentes recomendações, não as considera? Quando faz uma busca na internet, não faz uso desses resultados? Em todos esses exemplos, há robôs nos prestando serviços. E esses serviços usam algoritmos de IA. Eu vejo a IA nos ajudando, apoiando a tomada de decisão de profissionais em diferentes áreas. Como é possível analisar e identificar padrões em grandes volumes de dados, a IA pode, por exemplo, ajudar no diagnóstico mais preciso e precoce de doenças, possivelmente até antes das pessoas as desenvolverem, apoiar e acelerar a busca por curas e o desenvolvimento de vacinas, apoiar a prescrição de um tratamento elaborado especialmente para você, possibilitar a criação de robôs que podem ir aonde não podemos ir em segurança, como incêndios ou ao fundo do mar, robôs que podem ser companhia para pessoas, robôs que zelam por crianças e auxiliam na limpeza da casa.

Existe uma questão interessante neste tema, que é a definição de “inteligência” e sua aplicação em um sistema programado e abastecido com dados para interpretar e seguir uma lógica, digamos, racional. Segundo Sílvia, isso foi razão de discussão entre os pesquisadores para conceituar cientificamente a área no início dos estudos:

“O termo ‘inteligência’ sempre tornou difícil definir objetivamente a área e vejo que o termo também enfrenta essa dificuldade no dia a dia, pois as pessoas o interpretam de forma livre. A área de IA reúne métodos, técnicas e algoritmos de diferentes abordagens: estatística (matemática), simbólica (onde a lógica está embutida), evolutiva e conexionista. E ainda se apropria de outras áreas, conforme a aplicação em que está sendo usada”.

Sílvia cita um artigo em que Marvin Minsky, cientista americano que destacou-se nos estudos cognitivos no campo da inteligência artificial, afirma que a IA levaria as pessoas para uma era mais criativa, que as profissões iriam se modificar, pois os robôs passariam a nos auxiliar mais.

“Acredito nisso. No entanto, também acredito que a ética, a responsabilidade e o valor à vida humana devem estar sempre presentes nas aplicações de IA e na mente daqueles que a desenvolvem. O conceito de máquinas ‘inteligentes’ é bastante discutível. Não acredito em subjugo, como é apresentado nos filmes de ficção. Mas, como tudo na vida, é bom que ela seja usada pelo ‘lado bom da força’”.

Por mais tentador que seja projetar a humanidade auxiliada por robôs servis (a realidade buscada) ou tiranizada por máquinas rebeldes (o pesadelo distópico), entre “Os Jetsons” e “O Exterminador do Futuro”, o primeiro cenário é que desponta como mais factual.

“Criamos hoje aplicações de IA que usam redes neurais artificiais para resolver problemas”, explica a professora. “Essas redes resolvem apenas o problema para o qual foram desenvolvidas. Embora tenham inspiração nas redes neurais biológicas, as redes neurais artificiais são algoritmos de machine learning, instruções dadas para as máquinas. No futuro, será que poderemos ter uma integração dessas diferentes redes neurais, deixando a máquina mais ‘inteligente’ no sentido de termos uma interação mais natural com ela, solicitar serviços e apoio em muitas coisas do nosso dia a dia e do trabalho? Carros autônomos nos levando por aí, robôs nos atendendo e nos auxiliando em casa e nas lojas? É para onde estamos seguindo. Temos aplicações fantásticas não só em medicina, mas em muitas e muitas outras áreas. Por exemplo, em tarefas mais artísticas, temos máquinas/algoritmos escrevendo artigos de jornais, roteiros de filmes, músicas, fazendo pinturas”.

Mas se a evolução tecnológica capacitasse a IA com consciência e livre-arbítrio?

“Eu não acredito”, afirma Sílvia. “Há discussões filosóficas bem antigas sobre isso. Lembro-me de uma de John Searle, da década de 80: ‘Ninguém supõe que uma simulação de computador de uma tempestade nos deixará molhados... então por que alguém iria supor que uma simulação de processos mentais realmente teria processos mentais?’”

Em sua evolução, pontua ela, a inteligência artificial anda a par e passo com outros avanços tecnológicos na computação, como hardwares com maior capacidade de processamento, redes de computadores ampliadas, que viabilizam a telemedicina, e a computação gráfica, que permite simulações mais rápidas e mais baratas do que a pesquisa em laboratório, com resultados mais amplos, por exemplo, no desenvolvimento de fármacos e vacinas.

No campo das ciências humanas, a IA tem possibilitado experiências bem-sucedidas no cinema, nas artes plásticas, na música e na literatura. Embora o processo criativo turbinado por algoritmos se aproxime, em determinadas situações, daquele forjado pela mente humana, especialistas apontam que componentes fundamentais para produção artística, como emoção, feeling e improviso, ainda escapam da criação artificial.

“É importante lembrar que os algoritmos de machine learning que têm tornado essas aplicações possíveis usaram e continuam usando dados gerados por pessoas e empresas”, afirma Sílvia. “Estão aprendendo a fazer coisas que nós fazemos, pois estão encontrando isso nos dados. Há padrões em tudo. O escritor tem seu estilo de escrita e um artista plástico também. A máquina não usa a inspiração, a técnica e a experiência de um artista, ela se alimenta da arte já pronta. E lá encontra padrões e os reproduz. Toda arte tem uma assinatura. Já foram realizadas análises de padrões nas músicas que mais fizeram sucesso em determinado estilo e público e as máquinas geraram músicas inéditas a partir disso. O que é improviso e criatividade? Será que é fazer coisas que ninguém fez ainda e fazer de uma forma original e legal? Então talvez a máquina leve vantagem, pois nós temos a tendência a reproduzir o que aprendemos. Nossas fronteiras são mais definidas. Penso que os que improvisam e são criativos extrapolam essas fronteiras. Mas até que ponto? Até onde vão essas fronteiras humanas? A máquina explora o espaço de busca disponível, mesmo que seja gigantesco, testa milhares de combinações de coisas que sequer imaginamos em considerar ou combinar e, assim, certamente vai encontrar algo que alguém ainda não fez ou pensou. Há questões muito interessantes nessa área, inclusive relacionadas à autoria. Acredito que os artistas podem fazer uso da IA nas suas tarefas gerando trabalhos ainda mais fantásticos”.

Estes são aspectos positivos e luminosos da IA. Mas existe um lado controverso e sombrio ocupando lugar de destaque no debate. O uso dos algoritmos no gerenciamento de conteúdo, interação e engajamento nas redes sociais é alvo de críticas, por formatar um ambiente nocivo, no qual a disseminação de ódio, intolerância, preconceito e fake news tem poder desestabilizador de elevado impacto em pessoas, empresas e governos.

“Essa é uma questão bem importante”, defende Sílvia. “Como eu disse, a ética é fundamental. A disseminação desse tipo de conteúdo é realmente um mau uso da IA. Usar os recursos com essa finalidade é algo que deve ser tratado de forma mais severa. Existem iniciativas e pesquisas que visam identificar mensagens tóxicas e enganosas automaticamente. Mas o uso de redes sociais por jovens tem aspectos que ultrapassam as fronteiras da IA. Contudo, empresas que fazem mau uso dos dados a que têm acesso, especialmente para influenciar seus usuários, sejam jovens ou não, devem ser responsabilizadas.

Outra questão controversa abarca o uso da IA em sistemas de reconhecimento facial e na gestão de recursos humanos, recurso ainda visto como falho por reforçar preconceitos e estereótipos raciais e sexuais.

“Os algoritmos que usamos em IA são sempre os mesmos, o que muda são os dados nos quais eles são aplicados”, explica Sílvia. “Muitas vezes é a base de dados que não está representativa o suficiente. Neste caso, o sistema precisa ser alimentado com mais dados. Há casos em que o sistema apenas revela os comportamentos culturais já existentes, pois foi treinado com dados históricos que simplesmente refletem a cultura. Vamos supor que você criou um sistema para identificar as aptidões dos seus funcionários e, no caso de uma vaga, você usa o sistema de IA para aconselhá-lo. E aí percebe que ele sempre indica homens para um determinado cargo. Pode ser que na base de dados usada para treinar seu sistema esse cargo nunca tenha sido exercido por uma mulher. O problema não está na aplicação, mas nos dados. Por mais que a base de dados usada para o treino seja muito grande e possivelmente representativa, ela nunca é o todo, é sempre um recorte. De qualquer forma, o uso dos algoritmos de IA deve ser sempre usado com responsabilidade e ética, respeitando as pessoas e a vida, principalmente no caso de decisões tão impactantes”.

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