O novo ser humano: tecnologias genéticas e digitais

Postado em mai. de 2022

Ciência | Futuro e Tendências Globais | Neurociência

O novo ser humano: tecnologias genéticas e digitais

Marcelo Gleiser fala sobre as possibilidades futuras de digitalização da consciência e o novo ser humano.


Uma existência digital é possível? E se, no futuro, tivermos a escolha de nos preservarmos por meio da digitalização da consciência? A revolução genética e a expansão digital não são questões de ficção científica. Isso é questão de quando vai acontecer e quem vai fazer primeiro. E quais vão ser os regulamentos: como nós vamos regulamentar isso, quem vai decidir isso?

Reproduzimos, abaixo, trecho de uma entrevista que Marcelo Gleiser concedeu ao Fronteiras do Pensamento. Físico teórico, professor e escritor, é internacionalmente reconhecido no meio acadêmico. É autor de mais de uma centena de artigos citados e dezenas de textos publicados em formato impresso ou digital. O foco da sua pesquisa é o surgimento de estruturas complexas da natureza para descobrir o sentido do mundo e nosso lugar no grande esquema das coisas. Para isso, ele mira em questões muito fundamentais relacionadas ao que chama de “três origens”: a origem do universo, a origem da matéria e a origem da vida na Terra e em todos os lugares do cosmos.


“A gente não tem a menor ideia do que é o inconsciente humano. A gente nem sabe como o cérebro constrói a sua pessoa subjetiva. Então, daí até você dizer que vai poder transferir esse tipo de informação, armazenar esse tipo de informação, e daí ter uma existência digital, é um pulo absolutamente gigantesco.

Nem todo mundo quer ser imortal. Vamos dizer que você vire imortal e os outros em volta de você não virem, então você vai ver todo mundo de quem você gosta morrer, você vai ver uma série de transformações, e isso é muito difícil. Então, ou vai todo o mundo, ou não via ninguém, vamos fizer assim. Porque se forem só alguns, esses alguns vão se tornar um outro tipo de criatura, com uma mentalidade uma filosofia existencial totalmente diferente da nossa. Agora, se eu faria esse upload, e a resposta é sim. Com certeza. Se fosse possível eu faria, porque para mim não existe nada mais fascinante do que estar vivo, estar presente.

Se é uma coisa que eu aprendi e faço no meu dia a dia é me apegar à vida com unhas e dentes. Se a única opção no futuro é essa, eu preferia continuar do jeito que eu estou. Se você não consegue se preservar da maneira que está hoje e se a forma for através de uma digitalização da sua consciência, eu gostaria de arriscar isso, contanto que eu tivesse a opção de desligar o programa se eu quisesse. Eu não quero perder o meu livre arbítrio, porque a melhor escolha que um ser humano pode fazer é se quer viver ou morrer. E se você perde isso, daí você realmente perde o seu livre-arbítrio de uma forma muito profunda, e eu nunca gostaria de perder essa escolha.

Mas a revolução genética, essa sim está chegando muito mais rápido, e essa sim é concreta, é real. E a nossa expansão digital, através não só de celulares – mas vão acontecer muitas outras coisas no futuro próximo – essa sim é muito concreta. Mas esse quadro de transcendência digital, vamos dizer assim, essa ainda está longe – e nem sei se é possível, para ser sincero.

Com essas novas tecnologias genéticas e digitais, a gente não vai só preservar a nossa essência corpórea, viver mais tempo, etc, mas a gente vai ter a capacidade de se reinventar como criatura. Então, isso nunca acontece na história da humanidade, a gente nunca teve a capacidade de se reinventar. A gente seguia a evolução por seleção natural, mutações etc, de uma forma meio passiva, as coisas iam acontecendo. Mas agora não, a gente tomou as rédeas da evolução nas nossas mãos. E isso é muito profundamente diferente do que acontecia com a gente no passado.


Então, essa conversa que eu tive com vocês em que a gente vai ser capaz de desenhar novos tipos de seres “humanos”, entre aspas, porque humanos somos nós, esses vão ser uma outra coisa, isso já não é mais ficção científica. Isso é uma questão de quando vai acontecer e quem vai fazer primeiro. E quais vão ser os regulamentos: como nós vamos regulamentar isso, quem vai decidir isso?”.

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