Obra de Rodrigo Petrônio transita entre filosofia, literatura e semiologia

Postado em jun. de 2022

Literatura | Filosofia

Obra de Rodrigo Petrônio transita entre filosofia, literatura e semiologia

O poeta, ensaísta e escritor premiado, autor e organizador de duas dezenas de obras, fará uma das 12 conferências da Temporada 2022.


Lançado neste mê de junho, O último deus é uma coletânea de trinta contos. Vida e morte, natureza e cultura, sagrado e profano, tempo e eternidade, transe e realidade frequentam suas páginas. Rodrigo Petrônio é pesquisador do Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP, publicou os ensaios Crença e evidência e Por que o futuro será uma era dos meios?. É articulista dos jornais Valor Econômico e do Estadão e autor das coletâneas de poesia Venho de um país selvagem e Pedra de Luz, finalista do Prêmio Jabuti.

Poeta, ensaísta e escritor premiado, é autor e organizador de duas dezenas de obras que transitam entre filosofia, literatura e semiologia. Graduado em letras pela USP, é mestre em ciência da religião e pós-doutor pela PUC-SP, onde atua como pesquisador no Centro de Tecnologias da Inteligência e Design Digital (TIDD/PUC-SP). É também mestre e doutor em literatura comparada pela UERJ, com período na Universidade de Stanford, Estados Unidos. É professor da FAAP e há 15 anos ministra oficinas e cursos livres em instituições como Casa do Saber e Museu da Imagem e do Som.

Rodrigo Petronio fará uma das 12 conferências da Temporada 2022. Para conhecer os outros conferenciais e garantir o seu ingresso, acesse o site.

Conheça um pouco de sua obra

O encontro do leitor com O último deus, 2022, coletânea de trinta contos de Rodrigo Petrônio, é turbulento. Na primeira leitura, o susto com a crueza de alguns dos personagens e seus incríveis feitos são inevitáveis. Apesar desse choque, e acima dele, evidencia-se, de imediato, a rara qualidade dessa obra, qualidade que obriga ao distanciamento da impressão inicial e à releitura. Na segunda vez, já sem o impacto das sombrias bizarrices, o leitor não tem como evitar sua sedução, independentemente da agressividade de alguns textos. Pois, violência ― e quanta! ―, vida e morte, natureza e cultura, sagrado e profano, tempo e eternidade, transe e realidade frequentam suas páginas, além da ironia, uma ironia própria, porém colorida pelo sarcasmo. Dessa vasta, intrigante e complexa matéria se compõem os contos do autor, justamente premiado. Seu pensamento é labiríntico, obsessivo; alguns empenham-se em violências sufocantes, inexplicáveis, não apenas verbais, também físicas. Sempre subjacente, uma beleza dúbia perpassa todos os textos, dada a constante estranheza; é uma normalidade às avessas da realidade. Depois de algumas páginas, aprende-se a desconfiar do que virá a seguir; nada é como parece ser nesse duro mundo pós-humanista. Poeta no trato magnífico com a linguagem, em alguns textos o autor não demonstra condescendência para com o humano. São palavras escolhidas de um poeta, filósofo e cientista, organizadas sempre com o mesmo desenho, em parágrafos longos, com pouca pontuação.

 

Por que o futuro será uma Era dos Meios? (2022) retrata um novo conceito que o autor começou a desenvolver há alguns anos, a partir de um neologismo: bioceno. Este termo foi estabilizado parcialmente em um artigo que ele escreveu e foi publicado no Número 22 da revista Teccogs (Petronio, 2021a). Nele analisa em linhas gerais as pesquisas de Vikram Shyam, um dos poucos pesquisadores do mundo a desenvolver o mesmo neologismo. Naquele artigo, ele se concentrou apenas em expor em linhas gerais a pesquisa de Shyam e nomear alguns de seus conceitos, tais como paleomimesis, fisiomimesis, biomimesis e antropomimesis. Descreveu também a PeTaL (Tabela Periódica da Vida), projeto desenvolvido por Shyam na NASA a partir dos pressupostos da teoria biocênica. Por sua vez, o Antropoceno é uma mudança da época da Terra cuja oficialização nos meios acadêmicos está em vias de ocorrer. Conta com um profundo interesse por parte de diversos cientistas e pesquisadores, além de ser um dos fenômenos mais transdisciplinares do mundo contemporâneo. Mesmo assim, tendo em vista os impactos em escala global que os efeitos antropocênicos podem deflagrar, percebe-se que ainda não tem a atenção que deveria merecer. Sem minimizar a especificidade e a centralidade da ação dos humanos nas consequências negativas e mesmo catastróficas decorrentes do Antropoceno, acredito, entretanto que o conceito possui alguns problemas epistêmicos que precisam ser retificados. Um dos problemas principais é trazer em seu cerne a categoria antropos, o que gera um paradoxo. O mesmo antropocentrismo que produziu uma alteração devastadora do sistema Terra continua a ser enfatizado e reproposto pela nova época do humano, ainda que de modo negativo uma alternativa a este paradoxo, Petronio criou e tem desenvolvido o conceito de Mesoceno: uma época dos meios.

 

Crença e Evidência, que assina com Clarissa De Franco, destaca que ao longo do século XX, as próprias ciências naturais e humanas passaram a ser estudadas como partes integrantes de uma dinâmica maior, relativa às condições de possibilidade da crença e da descrença a partir das quais as ciências dotam suas teses de sentido. Não é apenas a ciência que acessa os diversos sistemas religiosos, demonstrando os modos pelos quais a crença e a descrença manifestam-se em termos evolucionários. Os sistemas de crença e descrença por sua vez também assumem um papel importante para a configuração de uma antropologia das ciências. Contudo, essa interface ainda se encontra bastante incipiente nos países de língua portuguesa. Nesse sentido, a obra Crença e Evidência se destaca como uma das primeiras contribuições para um estudo aprofundado e rigoroso desse tema no Brasil.

 

Em Venho de um país selvagem Rodrigo Petronio é um poeta para quem o amor propiciou o retorno ao magma de onde tudo surge e que se situa num território nas antípodas do caos. Neste mundo ordenado há avós, há um pai, há uma mulher amada – amada até esvaziar o próprio ser – mas a aventura permanece de todos nós, é a aventura humana, e por isso ele cria uma poesia generosa, que inclui o leitor, que conta com ele, que se recusa a existir fora dele.

Sem dúvida, a lógica desta poesia, ou da poesia tout court, leva “nossos passos sobre a terra, entre as algas”. A preposição “entre” deveria ser a mais reiterada nesta série que nos situa na certeza de estar numa viagem perpétua, sempre num “ir para”, ainda que não existam o acima e o abaixo, o centro e as beiras, uma viagem que deve guiar-se sempre por palavras entreouvidas, por golpes de intuição, e destruindo sem piedade as falsas verdades da prosa, de um saber “sensato” que nos é imposto como um lastro que nos impede o voo, esse que era o nosso único destino e que Petronio reencontra para nós na poesia. Porque ela está além dos pequenos paradoxos dessa sensata razão imposta, por isso nos permite ver o mundo a partir de um grau zero, ou de um grau novo, ou de um grau velhíssimo, imemorial como a água, como o pássaro, como o amor ou como os deuses.

 

 

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Rodrigo Petronio

Rodrigo Petronio

Escritor brasileiro

Grande pesquisador de tecnologias da inteligência e design digital.
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